terça-feira, 10 de abril de 2018

Vida no Trabalho & Trabalho na Vida

 Vida no Trabalho & Trabalho na Vida


    Actualmente vivo no estrangeiro há mais de dois anos, tendo arranjado trabalho há relativamente pouco tempo. Recentemente, durante a minha luta de arranjar o próximo emprego - aproximadamente meio ano - viajando pelo país (quase) todo, sem base, uma pessoa reflete sobre as mais variadas questões.

    Sentimentos de (1.) gratidão, de (2.) impotência, de (3.) felicidade e de (4.) saudade apoderam-se brutalmente, por vezes sozinhos ou esporadicamente acompanhados num perfeito brainstorm, construindo e desconstruindo certos pedaços que só a nós nos fazem sentido.

1. Gratidão. Quem é mais corajosa: A pessoa que fica num ambiente de trabalho degradante e que luta todos os dias para ter "pão na mesa", ou a pessoa que decide não ficar nestes locais e procurar por algo melhor?

    Do meu ponto de vista, tanto uma como a outra praticam actos de coragem.
   A minha gratidão deve-se ao facto de saber que familiares e amigos trabalham em ambientes que não são saudáveis, ou que não estão em empregos que gostam e, mesmo assim, continuam porque é impossível governar-se sem dinheiro e voltar as costas às responsabilidades. Pessoalmente, o desafio é sempre maior quando uma pessoa decide trabalhar no sítio onde se encontra.

    Sempre admirei, de igual maneira, pessoas que viajam e que se desafiam pela instabilidade inerente à vida. Agora, sinto que para manter alguma sanidade mental, a sociedade está sistematizada para operar de tal modo que o indivíduo sinta que tem completo controlo da sua vida... Mas, muito sinceramente, a vida é demasiado imprevisível e dinâmica para tentar dominá-la, o que me leva ao próximo ponto;

      2. Impotência. Quando se acha que se fez tudo o que era possível, haverá outra alternativa? 
       Sim, há sempre alternativa, tudo depende do quão longe uma pessoa pretende ir.
        
   No momento, quando a escuridão decide dominar a mente, bloqueia a clareza daquilo que é a realidade. Aprendi que a realidade é aquilo que a realidade é, e nada mais.
    A minha é diferente da tua.
    Se se está numa dada situacão, é porque as acções tomadas assim proporcionaram para esse culminar de acontecimentos.
   No que diz respeito ao trabalho, continuo a ser defensora de que, para que uma companhia / negócio tenha produtividade e sucesso, é imperativo que os empregados estejam felizes no seu ambiente de trabalho.

   Afinal de contas, no decorrer das nossas vidas, o que tem mais valor são as relações que enlaçamos.

    A nível pessoal, eu sempre tentei (e tento) ter uma postura neutra no trabalho, por uma questão muito simples: quando se chega a uma base que já possui uma certa bagagem, noto que há sempre histórias dispares.
    A vida em si já tem tanto drama, porquê criar mais drama no trabalho?!
    Eventualmente, quando te vês envolvida num cenário triste de trabalho, poucas cartas tens para lidar com os vários truque de magia. Ou deslumbras, desiludes ou evaporas.

    Sempre fui apologista de abordar a pessoa com quem estaria a ter conflito, comigo ou com outrém, e tentar resolver as coisas da forma mais humana que existe: através do diálogo. Resultou? Às vezes. Nem sempre. A única coisa que podes mudar és tu mesma, se a outra pessoa nao está predisposta, ou encontram meio caminho ou simplesmente tomam caminhos distantes. (Como tudo na vida!)

    A razão pela qual saí dos meus 3 últimos trabalhos teve que ver com auto-respeito. No final, todos os meus patrões reconheceram que eu sempre desempenhei as minhas funcões, propondo alternativas para que pudesse continuar a trabalhar. Mas, infelizmente, depois de lidar com bullying verbal, racismo, desrespeito e pessoas com complexo de superioridade,  mesmo tentando assentar as várias situações por via do diálogo, nunca teve efeito. Por isso decidi seguir um caminho diferente, pela minha sanidade mental e para valorizar a minha vida.

    3. Felicidade. Não acredito que se consiga estar 24h por dia feliz, mas quando tomas consciência de que a tua felicidade não tem que depender de outras pessoas, a revelação é muito libertadora.*

    Apesar de ter andado à procura de trabalho durante meio ano, o tempo de reflexão, e adicionando pessoas que conheci em diferentes pontos do país, foram mais uma fonte para o meu crescimento.
    Pessoas que enfrentam problemas com o mercado de trabalho, pessoas que saíram de relações matrimoniais violentas e pessoas que lutam para manter relações íntimas de 30 anos que não são aceites num pais, problema derivado das aplicações dos vistos.
   Todos nós temos uma luta a travar, uma insaciável busca de objectivos que nos aproximam deste nosso estado de felicidade...
Juntos, avançamos!

     4. Saudade. Aquela expressão que nos domina, sem avisar. Deixa-nos lágrimas de felicidade ou de uma escura nostalgia. Mas que bem nos faz à alma! Com a saudade do que a vida costumava ser, sem responsabilidades, com a cândida noção de sermos imortais... E agora, que a vida passa como areia entre os dedos das minhas mãos, vou tomando iniciativa para não parar...! "Caminhar para ir crescendo" (anónimo, in Lisboa).

   Concluindo, qualquer adversidade pode ser ultrapassada e ninguém melhor do que tu para saber qual o próximo passo a tomar. 
Como o grande Fernando Pessoa disse "Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo!"

*(Recordo de uma aula de Psicologia que tive na universidade, o meu docente disse-nos "Quando eu compreendo, eu liberto-me." A frase ficou gravada e nao hesitei em escreve-la. Hoje vou descobrindo os seus significados aos poucos.)



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